setembro 22, 2007

2º Capítulo - Viagem a Dresda

Lucian completava seis meses de estadia na mansão Köhler. Há muito tempo ele não conseguia desligar-se de problemas e aproveitar a calma do campo. Na França sua vida era envolta por festas e compromissos sociais, a Alemanha garantia uma privacidade incrível. No primeiro mês recebera uma carta de Caio, seu aprendiz, dando as coordenadas do exército inglês. A cada mês ele enviava nova carta avisando sobre o exercito que reunia, caso fosse necessário atacar Zilan. Naquela manhã Lucian e Johann recolheram todas as informações que possuíam e sentaram-se no escritório formando estratégias de ataque, quando o mordomo bateu.
Johann levantou-se. Atendeu a porta e recebeu um envelope branco com o selo da família Van Kirsh em cera vermelha. Sentou-se, deslacrou a carta e leu calmamente. Depois encarou Lucian:
- Os papéis de tuas terras na Bavária estão prontos, a compra está feita.
- Então devemos buscar os comprovantes com teu amigo.
- Creio que isso não será possível. Joseph e sua esposa foram mortos há uma semana. Nossa visita será apenas um pesar, uma despedida.
- Eu sinto muito.
- Não é necessário, eram apenas humanos.
A frieza de Johann espantava Baudelaire. Era normal que os homens germânicos não fossem calorosos e demonstrassem sentimentos, mas Köhler era assustador. Ele havia criado o sistema de treinamento da guarda oculta alemã. A preparação selecionava apenas os homens que se encaixavam no perfil que ele julgava adequado, os demais eram mortos. Por isso cada vampiro escolhia minuciosamente sua criança, a falha desta era o fracasso do mestre também. A cada dez soldados que iniciavam o treino, apenas um sobrevivia. Seres humanos eram apenas gado para estes monstros que muitas vezes matavam e se alimentavam da própria espécie.
Na noite seguinte os dois tomaram um carro até Dresda acompanhados de um cocheiro e um serviçal. Foram instalados em um hotel próximo a casa dos Van Kirsh, mantiveram sua presença em segredo durante dois dias, o tempo em que Lucian estudava a cidade e observava as pessoas em longas caminhadas noturnas. A casa de Joseph estava vazia e sua herdeira dormia na casa do juiz de fé da cidade. Ocasionalmente, quando havia uma abertura da parte dos habitantes, Baudelaire fazia perguntas. O olhavam desconfiados, ele era um estrangeiro, embora não possuísse sotaque, sua fala era muito calma para um germânico.
Tudo o que conseguiu descobrir foi que o casal havia sido enterrado dois dias após suas respectivas mortes, não realizaram velório e os caixão não foram abertos. Lucian concluiu que havia algo extraordinário naquele assassinato, precisava encontrar o coveiro e ele mesmo estudar os corpos. Foi assim que, na segunda noite na cidade, Johann foi obrigado a sair de seu quarto. Alugaram dois cavalos e enviaram seu serviçal para subornar o coveiro a fim de desenterrar os conjugues. Na calada da noite, quando não transitava uma viva alma pela cidade, pegaram suas montarias e foram até o cemitério. Encontraram os dois esquifes colocados sobre o altar da capela e o coveiro ao lado.
- Tome, pelo teu silencio – Lucian entrega uma moeda de ouro ao homem.
Johann encara os caixões, eram feitos de madeira escura e possuíam cruzes esculpidas na tampa.
- Então, vamos abri-los, colocamos os corpos no chão – Köhler abriu a primeira tampa – Lucian, olhe isso.
Era Marie, a esposa, estava colocada de bruços e tinha um corte feito por espada desde o cóccix até a nuca. Havia uma marca estranha queimada acima do corte:
- O que tu achas, senhor, ela foi torturada?
- Não, Johann, é uma assinatura. Esta mulher foi morta por um mercenário, e pela perícia de corte, eu juraria que o assassino é da mesma linhagem de Caio. Olhe, chega até a coluna, mas é de uma leveza e paciência incríveis.
- Caio é persa, não é mesmo?
- Não, romano, mas foi batizado pela família Zayed, seu treinamento e arte são árabes. Vire-a, deixe-me olhar a garganta.
Ao virarem o corpo encontraram um corte na garganta. Lucian colocou seu dedo no ferimento e forçou-o até alcançar o esôfago, encontrou um pequeno triangulo de metal no fundo do tubo.
- Ela morreu lentamente, foi espancada e depois recebeu golpes de uma espada de lâmina cortante, logo não é européia. O último ferimento foi o da garganta, e aqui está à moeda da família Braddock. O olho de Rá, deus sol, já que Satidus era originado da região egípcia. Sinto lhe informar, mas nós matamos seu amigo indiretamente.
- Não há o que sentir Lucian, não foi um grande sacrifício. Ajude-me com este corpo, senhor.
Com pouco esforço os dois abriram a tampa do segundo caixão. Ficaram parados por algum tempo observando o corpo.
- Corrija-me se eu estiver errado, mas falta algo neste corpo.
- Sim, Johann, a cabeça foi arrancada. Isso é apenas o que os teus olhos podem ver, mas o corpo foi preenchido com feno. Não há um órgão dentro deste defunto.
- Por que apenas o corpo de Joseph estaria vazio?
- Porque ele foi deposto em um ritual – Lucian mostra um pequeno pentagrama no pulso do morto – Eis o símbolo de invocação. Eu arriscaria que foram dois assassinos, um mercenário e um demônio, uma fêmea.
- Te referes a um sucubus?
- Não faz sentido, não há um encaixe! Por que um Braddock negociaria com um sucubus? Aliás, por que contratar um mercenário e fazer acordo com um demônio?
Köhler faz silencio e olha para Lucian:
- Tu consegues ouvir?
- Cinco cavaleiros vêm da direção norte, acabaram de pegar a estrada, chegarão dentro de quinze minutos. Johann, rápido!
Eles montam com muita pressa, trotam em ritmo alucinante até o hotel. Chegando a dez metros da construção espantam os cavalos e continuam a pé. Utilizando de sua leveza, ambos arrastam seus corpos pelas paredes de pedra, entram pela janela do quarto. Limpam as botas e vestem camisolas. Aguardam durante meia hora. Um pulso irritante bate a porta e uma voz feminina extremamente aguda irrompe o cômodo.
- Mein Herr! Abra a porta.
Baudelaire levanta-se da cadeira e leva um livro a mão. Veste um roupão vermelho que estava pendurado em um cabideiro.
- Posso ajudá-la?
- Há cinco senhores na sala de estar que desejam vê-los.
- Já passa das doze horas, senhora, não irei recebê-los.
- Mas, senhor, são homens da lei.
- É melhor descermos, Lucian.
A senhora analisa Johann dos pés a cabeça. Surpresa, curva-se e o reverencia:
- Perdoe-me, senhor. Não sabia que tu estavas hospedado aqui. Caso tu queiras eu descerei e pedirei para os cavalheiros voltarem amanhã após o desjejum.
- Não será necessário. Nós desceremos em cinco minutos.
Baudelaire fecha a porta:
- São os mesmos cavaleiros que tentaram nos flagrar no cemitério, Johann. Mantenha a calma, provavelmente estão nos seguindo por sermos forasteiros e o coveiro deve ter dado informações sobre nossa visita. Como fui ingênuo, nosso comportamento levanta suspeitas, as minhas perguntas e o fato de chegarmos agora a cidade. Eles procuram um assassino.
Quando descem as escadas, Lucian e Johann deparam-se com cinco homens vestidos impecavelmente. O mais velho era Otto Bohrer, o juiz de fé da cidade, estava acompanhado por seus dois filhos, Ludwing, o mais velho, e Iam, ambos serviam a guarda da cidade. Os outros dois eram senhores responsáveis pela investigação das mortes, haviam sido enviados de Berlim. Hanz Kirchhof era um homem da Igreja e Fritz Schneider servia a guarda do império.
- Senhor Köhler, por que não noticiou tua chegada? – Otto era um homem em seus cinqüenta anos, os cabelos estavam totalmente grisalhos e os olhos opacos, sem brilho ou vida, a pele enrugava sobre seu nariz e extremidades.
- Preferi ser discreto, vim apenas para tratar de negócios, já que Joseph morreu e eu havia deixado alguns documentos com ele.
- Sim, as escrituras estão em minha casa. Eu recolhi tudo o que havia no escritório de Van Kirsh.
- Senhores, este é Lucian Baudelaire, de Paris. Ele está hospedado em minha casa, procura exílio. A França está em uma situação horrível.
- Seja bem-vindo, senhor Baudelaire. Já ouvi falar muito do senhor, creio que ouvi até exageros. Acredita que disseram que o rei lhe consultava antes de travar batalhas?
- Bem, meritíssimo, eu deixei Paris pois tive um pequeno desentendimento com minha alteza. Carlos VI é sábio, mostrou ser um aluno exemplar, mas cometeu um erro clássico. Entrou em guerra contra a Inglaterra, que logo será uma potencia maior que a França. Justamente quando mais precisava o rei não me ouviu.
- Bem – Otto parece extremamente desconcertado – Mas o senhor é muito novo.
- O juiz está se limitando a um olhar superficial. Lucian pertence a uma família tradicional, especializada em assuntos bélicos – Johann senta-se – Pois bem, vamos ao ponto. Já está muito tarde. O que os senhores desejam?
Fritz toma a frente. Ele era um mancebo metido a esperto, usava roupas gastas, um pouco foras de moda. Tinha pouco mais de um metro sessenta e um jeito de falar petulante:
- Estamos investigando a morte do senhor e da senhora Van Kirsh e os senhores são os únicos forasteiros que encontramos hospedados na cidade. Alguns moradores comentaram sobre o comportamento estranho do senhor Baudelaire, fazendo perguntas sobre o crime. Hoje, ao cair da tarde, o coveiro nos avisou sobre dois homens que pretendiam abrir os caixões da família Van Kirsh e haviam enviado seu lacaio para acertar um preço para ele desenterrar os corpos.
- Isto é muito fácil de explicar, senhores – Baudelaire chama a camareira e lhe pede xícaras com chá – Joseph Van Kirsh era o contador de Johann. Ele estava realizando uma compra de terras na Bavária no nome de meu amigo, mas que seriam utilizadas por mim. Recebemos a noticia do ocorrido e ficamos preocupados com os documentos que estão na casa do senhor juiz e, obviamente, com o crime. Fiz algumas perguntas, mas não sei nada a respeito dos caixões desenterrados. Isso tudo pode não passar dos delírios de um homem solitário.
Lucian encerra a frase com um leve sorriso no rosto. Aquela criatura possuía uma lábia espantadora, com apenas duas frases ele havia convencido a todos naquela sala. Nas conferencias internacionais Baudelaire era conhecido como a boca do diabo. Ele podia fazer uma pessoa pensar o que ele desejasse. Dez minutos de conversa desenrolaram-se em volta do crime. Johann levantou-se, andou até a lareira:
- E o que será feito da jovem Inefir?
- Por enquanto, ela está em minha casa, aos cuidados de minha esposa – responde o juiz – Dentro de alguns dias ela deve ser enviada para um orfanato.
- Mas isso é um insulto a memória de meu amigo!
- Veja bem, senhor Köhler, a menina não possui herança ou alguém que a queira. Um orfanato é o mais adequado.
- E a família? O nome Van Kirsh é tradicional, a família possui muita influencia.
- Sim, senhor, e é por isso que conseguiram que uma criança de pais excomungados fosse aceita em um orfanato católico. Mas a família não quer a filha de um pecador dentro de sua casa.
- Há algo errado, Joseph era religioso.
- Antes de Inefir nascer ele se desentendeu com o papa. A Igreja influenciou a todos que podia para que os negócios de Joseph falissem. Marie não abria mão de seus luxos. Em alguns anos ele se tornou um nobre decadente. A história foi mantida em segredo para preservar a honra da família, mas o pai de Joseph nunca mais o olhou nos olhos e nem assumiu Inefir como neta.
- Muito bem, senhores. Sinto interromper, mas já está tarde. Johann, devo me retirar.
- Sim, já está tarde. Amanhã passo em tua casa, senhor Bohrer, preciso de meus documentos. Boa noite.
Os senhores saem e Baudelaire se dirige ao fim do corredor do segundo andar, enquanto Köhler segue para o quarto ao lado. Lucian retira o roupão e a camisola, deita-se na cama desnudo. Não tinha necessidade de dormir, apenas não queria chamar mais atenção. Fechou os olhos e tentou se desligar de tudo, da guerra francesa, da traição Braddock, dos problemas com suas terras e com o surgimento de dois assassinos. Sentiu um leve toque subir por suas pernas por baixo das cobertas. Abriu os olhos e deparou-se com uma forma feminina de longos cabelos dourados que caiam em cachos. Tomou algum fôlego, mas a única palavra que se desprendeu de seus lábios foi “Hirithrin”.
A mulher deitou seu corpo nu sobre o tórax de Lucian, posicionou as coxas em torno de sua cintura e encaixou-se em seu membro. A medida que seus quadris se moviam, as pernas apertavam mais o corpo masculino, fazendo-o sufocar. Baudelaire tenta distinguir a realidade e a ilusão, tenta ignorar seu prazer. Aos poucos sente um cheiro ácido de pimenta tomar o quarto. Ergue as mãos e segura os cabelos da mulher:
- Sua víbora, nunca mais ouse tomar a forma de Hirithrin!
Uma cortina de nevoa parece se desfazer, seus ouvidos voltam a captar o som, do lado de fora da porta Johann tentava abri-la. Ao voltar os olhos a criatura que estava em seu quarto, ele percebe a transformação de pele em escamas e antes que possa definir uma forma, ela se desfaz em cinzas, deixando apenas uma mecha de cabelos dourados em sua mão. Köhler arromba a porta:
- Que diabos foi isso? Eu ouvi gritos ensurdecedores, agudos.
- Aquilo, meu amigo, foi a voz de Lilith, ela invocava um feitiço para cegar-me e ensurdecer-me. Agora eu entendi a estratégia de Zilan. Devemos partir amanhã a noite.
Ele joga a mecha fora, antes de tocar o chão ela se desintegra.

Nenhum comentário: